Visão geral do tratamento da obesidade
Mais da metade dos adultos brasileiros está acima do peso ou é obeso. A obesidade é uma doença crônica, que requer tratamento multidisciplinar e a longo prazo, envolvendo mudanças no estilo de vida, como alimentação equilibrada e prática regular de atividades físicas. Por muito tempo, a cirurgia foi considerada a melhor opção para tratar os casos mais graves de obesidade, especialmente quando havia outros problemas de saúde envolvidos. No entanto, com o avanço da medicina, surgiram medicamentos modernos que têm se mostrado uma alternativa eficaz e menos invasiva, trazendo novos caminhos para o tratamento da obesidade.
Os principais medicamentos anti obesidade disponíveis no Brasil hoje são a Semaglutida (Ozempic e Weygovy), um agonista do receptor GLP-1, e a Tirzepatida (Mounjaro), um agonista dual dos receptores GIP e GLP-1. Em estudos clinicos, pacientes que receberam a semaglutida alcançaram perdas de peso médias de até 15% ou mais do peso corporal inicial, enquanto nos estudos com a tirzepatida a perda de peso foi de cerca de 20%. Esses resultados mostram que essas medicações têm uma eficácia que se aproxima da obtida com os tratamentos cirúrgicos. Por isso, elas se tornaram uma opção muito atraente para o tratamento da obesidade, especialmente para quem busca alternativas menos invasivas.
Contudo, uma vez que a obesidade é uma doença crônica, surge uma questão central em relação ao uso das medicações antiobesidade: se o paciente mantém uma rotina saudável, ainda é necessário continuar com a medicação antiobesidade para evitar a recuperação do peso? A publicação do estudo SURMOUNT-4 em 2023, no Journal of the American Medical Association (JAMA), trouxe algumas respostas importantes.
SURMOUNT 4
O SURMOUNT-4 foi um estudo clínico de fase 3, multicêntrico, randomizado e duplo-cego, que avaliou a eficácia e segurança da tirzepatida na manutenção da perda de peso em adultos com obesidade ou sobrepeso. Foram selecionados 783 adultos com obesidade ou sobrepeso, sem diabetes tipo 2. Todos receberam inicialmente uma aplicação semanal da dose máxima tolerada (10 ou 15 mg) por 36 semanas. Depois, os participantes foram randomizados para continuar com tirzepatida ou mudar para placebo por 52 semanas, totalizando 88 semanas de seguimento. O desfecho primário foi avaliar a manutenção da perda de peso e a segurança do tratamento contínuo com tirzepatida.
Após as primeiras 36 semanas com tirzepatida, os participantes apresentaram uma perda de peso média de 21,1% do peso corporal inicial. Os participantes que continuaram com a medicação alcançaram uma perda de peso total de 26,0% ao final de 88 semanas, enquanto aqueles que mudaram para placebo recuperaram, em média, 14,8% do peso perdido durante as 52 semanas subsequentes. Assim, o estudo concluiu que o grupo da tirzepatida apresentou maior manutenção e redução de peso em relação ao grupo placebo.
Quanto à segurança do tratamento contínuo, a tirzepatida foi geralmente bem tolerada, com eventos adversos gastrointestinais leves a moderados, consistentes com estudos anteriores.
Discussão
O estudo tem seu mérito em avaliar a segurança do uso da tirzepatida a longo prazo, uma informação que traz tranquilidade aos pacientes com indicação de uso contínuo da medicação. Contudo, alguns pontos precisam ser discutidos em relação às diferenças encontradas entre os grupos randomizados.
Como os próprios autores apontam na discussão, nem todos os pacientes toleraram as doses de tirzepatida utilizadas no estudo (10 mg ou 15 mg). Portanto, não é possível afirmar que, nas doses usualmente toleradas pelos pacientes, os resultados a longo prazo serão tão expressivos quanto os observados no estudo.
Além disso, não foi avaliado o efeito de intervenções comportamentais enérgicas na manutenção do peso a longo prazo. Podemos questionar se a diferença entre os grupos seria tão marcante caso os pacientes também fossem submetidos a intervenções não medicamentosas mais rigorosas. No entanto, essa dúvida só poderá ser esclarecida com novos estudos.
Por fim, outro ponto relevante é a possibilidade de viés de desmascaramento, uma vez que os efeitos colaterais da tirzepatida, como náuseas, vômitos e diarreia, são bastante evidentes. A figura abaixo, extraída do estudo, mostra a incidência desses eventos durante a fase duplo-cega.

A incidência de efeitos colaterais é notadamente maior no grupo de intervenção, mesmo nas semanas finais do estudo. Assim, os participantes ou os pesquisadores poderiam deduzir quem está recebendo o tratamento ativo, rompendo o cegamento. Isso pode influenciar a percepção sobre a eficácia ou a segurança do tratamento, comprometendo a validade dos resultados.
Conclusão
O estudo representa mais um passo importante no tratamento da obesidade, reforçando que, assim como outras doenças crônicas, a obesidade pode exigir tratamento medicamentoso contínuo para seu controle. Diante dos pontos levantados anteriormente, é importante interpretar os resultados com cautela. No entanto, isso não diminui a relevância do estudo, nem a urgência de compreender melhor e abordar a obesidade de forma efetiva.
Você precisa fazer login para comentar.